Nos últimos anos, tenho aderido ao cliché de janeiro de fazer as minhas resoluções de ano novo. Tudo o que costumo fazer é encher uma página de um caderno com todas as coisas fantásticas que gostaria de fazer no novo ano. Apesar de ter conseguido alguns resultados com este método, apercebi-me de que os meus objetivos são demasiado genéricos, dispersos, e não me dão qualquer informação acerca de como os alcançar. Por este motivo, chego a esquecer-me deles durante meses seguidos.
Portanto, este ano decidi levar as coisas um pouco mais longe e decidi definir os meus objetivos de uma forma mais profunda. Isto levou-me a criar um sistema que acredito que fez os meus objetivos para 2026 mais relevantes, forçando-me a pensar profundamente acerca do que quero e de como o posso alcançar.
O sistema RPMM
RPMM significa Roles (Cargos), Priorities (Prioridades), Milestones (Etapas) e Metrics (Métricas), que são os conceitos chave que vamos utilizar para desdobrar ideias de alto nível em tarefas concretas e formas de as avaliar. O processo de definição de objetivos é dividido em 6 passos:
🔑 Visão Geral do RPMM:
- Definir o horizonte temporal
- Definir os cargos que são uma prioridade na nossa vida
- Para cada cargo, definir a prioridade principal
- Para cada prioridade, definir as etapas que nos vão permitir alcançá-la
- Definir métricas mensuráveis para as prioridades e para as etapas
- Monitorizar!
Nas próximas secções, vamos aprofundar cada um destes passos, explicando a sua lógica e apresentando um exemplo prático que aprofunda a resolução de ano novo de “ficar em forma”. É de notar que descobrir quais são as nossas prioridades faz parte do processo, portanto, apesar de o leitor poder já ter uma ideia pré concebida dos seus objetivos, é uma boa ideia explorá-los à medida que segue o processo. Estamos revelar o exemplo de “ficar em forma” desde o inicio para que o leitor já saiba o que esperar dos exemplos.
Sinta-se à vontade para pegar numa folha de papel e acompanhar este artigo usando as suas próprias prioridades e objetivos, à medida que vamos explorando o RPMM. Algumas secções incluem também perguntas chave que poderão ser úteis para aplicar um determinado passo à sua realidade.
Passo 1: Definir o horizonte temporal
Apesar de parecer óbvio, associar os nossos objetivos a um horizonte temporal claro permite-nos refletir acerca do volume de trabalho que conseguimos realisticamente gerir nesse horizonte. É muito fácil atirar para uma página tudo o que gostaríamos de alcançar num ano sem pensar minimamente se conseguimos trabalhar em todas essas coisas paralelamente. Isto leva a falta de foco, que arruína a conquista de objetivos.
Como é que vamos saber em que trabalhar se queremos melhorar todos os aspetos da nossa vida? Como vamos saber o que priorizar quando temos recursos limitados? Já caí nesta armadilha demasiadas vezes.
Começamos por definir um horizonte temporal para podermos pensar no que conseguimos realisticamente alcançar nesse horizonte. Por este motivo, é muito importante ter este facto em mente durante os próximos passos e escolher uma quantidade realística de problemas para resolver no tempo que temos.
🔍 Exemplo - Ficar em forma
Horizonte temporal: Este ano (até ao final de 2026)
Passo 2: Definir os cargos que são uma prioridade na nossa vida
É muito comum termos muitos aspetos da nossa vida a lutar pela nossa atenção. Seja o trabalho, familia, vida social ou passatempos, há constantemente algo a exigir a nossa atenção e é frequente termos dificuldade em equilibrar a dedicação que damos a cada aspeto das nossas vidas, ficando desiludidos quando temos de sacrificar uma responsabilidade em prol de outra. É impossível focarmo-nos em tudo ao mesmo tempo e temos de aceitar esse facto ao definir os nossos objetivos.
Por esta razão, temos de escolher os “cargos” que são uma prioridade durante o nosso horizonte temporal. Escolher aquilo que nos é mais importante e abdicar de tudo o resto é um passo importante para ser bem sucedido nessas coisas importantes. Para o horizonte temporal de um ano, não nos devemos focar em mais que 3 ou 4 cargos.
Neste contexto, um cargo é por exemplo “pai”, “trabalhador na empresa X” ou “amigo”. Devemos pensar nos cargos como responsabilidades que podemos descrever com um nome.
A ideia de dividir responsabilidades em cargos vem do livro “Os 7 Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes” de Stephen R. Covey, que sugere que estarmos conscientes dos diversos papeis que desempenhamos na nossa vida é uma boa forma de organizar tarefas semanais. Eu fui bem sucedido com esta divisão, que me tem permitido gerir múltiplas responsabilidades simultaneamente, portanto decidi utilizar o conceito nos meus objetivos a longo prazo.
🔍 Exemplo - Ficar em forma
Cargo: Individuo (Desenvolvimento Pessoal)
🔑 Perguntas Chave
- Que aspetos da minha vida quero melhorar?
- A que responsabilidades me quero dedicar?
- Que áreas da minha vida estão a exigir demasiada atenção (diminuir a dedicação àquilo que já não nos é importante é uma prioridade razoável).
Passo 3: Para cada cargo, definir a prioridade principal
A prioridade principal é o objetivo que definitivamente queremos alcançar no horizonte temporal. Tem de ser realística, mas pode ser algo de relativamente alto nível, visto que a vamos desdobrar nos passos seguintes.
É razoável definir mais do que uma prioridade para um dado cargo, especialmente em horizontes temporais mais longos, mas o número total de prioridades (para todos os cargos) deve ser baixo. Se tudo é uma prioridade, nada é uma prioridade.
🔍 Exemplo - Ficar em forma
Prioridade: Ficar em forma
🔑 Perguntas Chave
- O que é que eu quero alcançar neste aspeto da minha vida?
- O que é que contribuiria para os meus objetivos a longo prazo?
- O que é que me faria sentir realizado?
Passo 4: Para cada prioridade, definir as etapas que nos vão permitir alcançá-la
Este passo consiste em desdobrar a prioridade em tarefas mais simples para que possamos trabalhar nelas separadamente. Isto permite-nos refletir acerca dos passos individuais que precisamos de tomar para alcançar a nossa prioridade. Esta reflexão força-nos a estabelecer um plano para realizar os nossos objetivos. É isto que transforma as nossas prioridades em objetivos concretos ao invés de se manterem simplesmente como desejos, fazendo-nos assumir responsabilidade pela sua concretização. Neste passo definimos aquilo em que realmente queremos trabalhar no nosso dia-a-dia.
O segredo para uma boa definição de objetivos é o entendimento profundo de como eles podem ser alcançados. Isto poderá requerer alguma pesquisa ou reflexão, mas é muito positivo fazer esse trabalho no inicio do processo para que nos possamos focar na concretização dos objetivos a partir do momento em que nos comprometemos a alcançá-los. Deste modo, evitamos perder-nos na incerteza de não saber o que fazer e podemos começar imediatamente a trabalhar. É perfeitamente aceitável pausar o processo neste passo para fins de pesquisa, o que faz com que as etapas que acabamos por definir sejam o mais concretas possível.
🔍 Exemplo - Ficar em Forma
Etapas:
- Estabelecer uma dieta saudável
- Inscrever num ginásio
- Perder peso (chegar aos 67Kg)
- Desenvolver um programa de treino regular
- Conseguir correr 5Km sem parar
📝 Nota: É de notar que não sou um especialista em desporto, portanto este exemplo serve apenas para fins ilustrativos. Consultar um especialista é um exemplo de uma etapa!
🔑 Perguntas Chave
- Quis são os passos individuais que tenho de seguir para alcançar a minha prioridade?
- Como é que posso desdobrar a minha prioridade em objetivos mais pequenos?
Passo 5: Definir métricas mensuráveis para as prioridades e para as etapas
O problema com a definição de objetivos de alto nível e a falta de mensurabilidade. Sem uma forma de registarmos o nosso progresso, não temos maneira de saber que distancia do caminho já precorremos. Ao definir métricas de avaliação claras, podemos monitorizar esse progresso e ajustar o nosso dia-a-dia, o que nos permite corrigir a nossa trajetória se as coisas não estiverem a correr como planeado.
Alguns objetivos são relativamente simples de alcançar, enquanto que outros requerem muita experimentação para descobrir o que funciona. Este passo permite-nos avaliar regularmente se o nosso processo está realmente a contribuir para o nosso sucesso, podendo ajustá-lo quando necessário. Isto também tem a vantagem de nos permitir visualizar o nosso progresso, o que nos faz sentir recompensados.
As métricas de avaliação também nos dão uma visão clara daquilo que precisamos de alcançar no nosso dia-a-dia para sermos bem sucedidos. Se soubermos que precisamos de conseguir ir em média 3 vezes por semana ao ginásio em Dezembro, então sabemos que precisamos de ajustar a nossa rotina semanal para acomodar facilmente essas três sessões de treino.
🔍 Exemplo - Ficar em forma
Métricas de avaliação:
- Comer 28 refeições caseiras por mês (comer fora apenas 2x por mês)
- Chegar a junho com 13% de gordura corporal
- Ir em média 3x por semana ao ginásio todos os meses
- Chegar a 67Kg no final do ano
- Conseguir fazer 3 séries de 6 elevações
- Conseguir correr 2,5Km sem parar em junho
- Conseguir fazer uma corrida de 10Km em Dezembro
🔑 Perguntas Chave
- Como é que posso avaliar o meu progresso em cada etapa?
- O que é que tenho de conseguir alcançar até ao prazo do horizonte temporal para considerar que fui bem sucedido?
Passo 6: Monitorizar!
O passo final do RPMM é definir onde vamos armazenar os nossos resultados. Isto pode ser uma spreadsheet, uma aplicação, um quadro branco ou um ficheiro de texto. O formato não interessa desde que não seja um motivo de fricção, devendo ser facilmente acessível e mantível. Pessoalmente, uso spreadsheets porque sou uma pessoa muito orientada para os dados, mas já usei simples blocos de notas no passado.
Assim, para cada métrica definimos o nosso método de monitorização. Normalmente é um número mensal, mas outros formatos são aceitáveis desde que anotá-los não se torne um fardo. Por exemplo, algumas pessoas podem conseguir anotar quantas calorias consomem todos os dias, mas isso requer bastante esforço. Portanto, é melhor simplificar a monitorização do que não anotar nada devido a ambição excessiva ou falta de disciplina (ou memória) para recolher os dados necessários.
🔍 Exemplo - Ficar em forma
Métrica Janeiro Fevereiro Março … Vezes que comi fora 2 1 3 … Percentagem de gordura 17% 16% 16% … Sessões de treino 12 15 11 … Número máximo de elevações 2x4 3x3 3x3 …
O problema com resoluções de ano novo
O novo ano pode ser uma altura fantástica para refletir acerca do rumo das nossas vidas, visto que nos dá um horizonte temporal definido em que pensar (o ano em questão). Para além disso, o retorno à normalidade depois da época de festas dá-nos uma sensação de “novo começo” que pode ser bastante motivadora para começar algo novo. Apesar disso, tanto o senso comum como a investigação sugerem que as “resoluções de ano novo” são muito rapidamente abandonadas sem apresentar resultados significativos.
É por isso que vejo a definição de prioridades e objetivos como uma alternativa melhor. A diferença pode parecer subtil, mas é bem mais profunda do que parece à primeira vista. De acordo com o Dicionário Infopédia da Porto Editora, o termo resolução implica um propósito ou intenção, enquanto que um objetivo é algo que se pretende alcançar e uma prioridade é algo que tem precedência a tudo o resto. Enquanto que uma resolução é simplesmente uma intenção, objetivos e prioridades implicam maior responsabilidade pessoal.
Quando escrevemos resoluções não somos forçados a pensar em como as vamos alcançar. Apesar de até fazermos um esforço para as respeitar durante os primeiros dias do ano (impulsionados pela motivação que a sua definição nos deu), quando a rotina passa a ser novamente a normalidade e os problemas do dia-a-dia começam a exigir a nossa atenção, as resoluções rapidamente se desvanecem, esperando o próximo ano, quando tudo vai magicamente correr como imaginamos.
O segredo para atingirmos os nossos objetivos não é a motivação, mas sim a disciplina. Não é a forma como lidamos com os dias bons que importa, mas sim a forma como lidamos com os dias maus. Ao saber quais são as nossas prioridades e como as podemos alcançar estamos a criar os alicerces que nos vão permitir continuar comprometidos a logo prazo.
Não estou a prometer que seguir este processo nos vai magicamente fazer atingir todos os nosso objetivos. Algumas coisas são mesmo muito difíceis de fazer e podem levar anos a alcançar. No entanto, acredito que investir um pouco mais de tempo no processo de definição de objetivos pode fazer toda a diferença, aumentando as nossas chances de sucesso.
Bom 2026.