No desenvolvimento de software, quando aprendemos uma nova linguagem de programação, o primeiro programa que costumamos escrever é chamado de Hello World. Um programa que consiste simplesmente em escrever a frase Hello World! num terminal.

O resultado costuma ter este aspeto:

1$ Hello World!

Esta é a história do Hello World mais demorado que alguma vez escrevi…

Um Contexto de Procrastinação

Desde criança que adoro escrever. Lembro-me de imaginar mundos malucos e personagens peculiares para as minhas composições da escola, perdendo-me frequentemente no fluxo da escrita de descoberta (na altura não fazer ideia do isso era, mas hoje sei que é o nome que damos ao método de escrita em que a história se desenvolve durante o processo de escrita em vez de ter um rumo definido), ansioso por ver onde a história iria parar.

Numas férias de verão, depois de terminar os trabalhos de casa, o meu pai deu-me a tarefa de escrever uma composição sobre “A relação entre as vacas e os Ferraris”. Obviamente, isto era apenas uma desculpa para me impedir de passar o dia todo a ver televisão (e foi provavelmente o tema mais absurdo de que ele se lembrou). Apesar de tudo, diverti-me imenso a imaginar um mundo em que uns engenheiros da Ferrari fizeram uma grande descoberta e inventaram um motor movido a esterco de vaca.

Muitos anos depois, quando estudava engenharia informática na universidade, rapidamente descobri que uma das melhores formas de começar a trabalhar com uma tecnologia obscura era ler um artigo num blog a explicar como configurar um ambiente de desenvolvimento — um Hello World. Isso deu-me a ideia de criar o meu próprio blog, onde poderia partilhar as minhas próprias configurações, conceitos e reflexões. No mínimo, se ninguém o lesse, teria sempre a minha própria biblioteca de tutoriais de tecnologia.

Isto foi há 6 anos.

Alguns anos depois de ter tido esta ideia pela primeira vez, fui estudar para o estrangeiro e pensei: “Vai ser desta! Vou finalmente ter tempo para começar a escrever!”. Foi nessa altura que nasceu o nome Logicand. Durante este período, a única coisa que fiz foi comprar o domínio do website.

Alguns meses depois, quando acabei o curso, decidi tirar umas férias antes de iniciar a minha carreira profissional. Mais uma vez, pensei: “É desta! Vou finalmente lançar o Logicand!”. Durante esse tempo, escrevi a primeira versão daquele que se tornou o código-fonte deste blog.

Cerca de um ano mais tarde, mudei de empresa e tirei umas pequenas férias. Novamente pensei: “Desta vez é que vai ser! Vou ter tempo para começar o meu blog!”. Em vez disso, acabei por reescrever o código-fonte do website numa framework diferente.

Continuei com o bichinho da escrita durante uns tempos até que um dia, aborrecido na espera para cortar o cabelo, abri a aplicação de notas do meu telemóvel e simplesmente anotei algumas palavras sobre quanto tempo me estava a levar o começo da escrita. Essa nota ficou esquecida durante meses, mas plantou a semente do que se tornaria este post.

Alguns meses depois, notei uma inconsistência no sistema do IRS Jovem em Portugal (na altura em que a retenção na fonte estava a ser mal calculada) e tentei escrever sobre o assunto. Esse texto tornou-se rapidamente tão técnico e complicado que passou a ser uma chatice não só de escrever, mas também de ler. Entretanto, o governo lançou um comunicado a corrigir o problema e eu perdi toda a motivação para o acabar.

Finalmente, em abril deste ano, fui convidado para dar um workshop sobre blockchain e precisava de um sítio para alojar os materiais da apresentação. Portanto, lá peguei no código-fonte que tinha para este blog, adicionei uma secção de apresentações (agora chamada 💻 Tecnologia), escrevi a página para o workshop e coloquei o site online.

Ao fim de 6 anos, tinha finalmente um blog online!

Só precisei foi de ter um prazo.

Porque é que demorei tanto a fazer algo que gosto?

Acredito que existiram vários fatores a contribuir para este longo ciclo de adiamentos (que é algo frequente noutras áreas da minha vida). Tudo começa na minha característica de perfecionista. A certo ponto, tinha praticamente o esboço de todo o post escrito na minha cabeça, mas a minha visão era tão idealizada que eu sabia que escrevê-lo seria uma tarefa gigante, mesmo antes começar. Isso levou-me a um ciclo interminável de procrastinação.

E nisto, entrou a insegurança na equação:

💬 Pensamento

“E se eu não conseguir concretizar a minha visão?

“E se a minha escrita for, na verdade, péssima?”

“E se toda a premissa deste post for medíocre?”

Estes pensamentos intrusivos (com a quantidade de trabalho que eu sabia que era necessária para concretizar a minha visão) foram um assassino gigante da minha motivação. Por que é que eu haveria de ter tanto trabalho para falhar redondamente? Então, adiei o ato de começar.

Durante meses.

Olhando para trás, tudo isto foi um grande obstáculo ao longo da minha vida. Tive tantas ideias que nunca viram a luz do dia, não por não valerem a pena, mas porque não tinha qualquer pressão externa para as concretizar. Por que raio iria ter tanto trabalho por algo que poderia não ter sucesso? “Posso fazer isto mais tarde, quando tiver tempo” ou “Faço-o depois de terminar esta outra coisa”. Tive estes pensamentos tantas vezes, que agora estou sentado no topo de uma pilha de ideias mortas.

Esta atitude passou-me com uma ligeira alteração de mentalidade. Não tenho a certeza do que a causou porque não foi um momento específico, mas sim um processo, o que é difícil de reconhecer sem olhar para trás e ver o caminho que já precorrido.

O lento processo de fazer coisas

Existe uma ideia simples, mas poderosa, que foi popularizada na comunidade de criação de hábitos por James Clear no seu livro Hábitos Atómicos. Esta ideia afirma que, antes de dominar um hábito, precisamos de dominar a arte de “aparecer”. Isto consiste em definir os passos mínimos para completar a versão mais simples do hábito.

Seguem dois exemplos clássicos:

🔍 Exemplo

Hábito: Fazer Exercício Físico

Passos Mínimos: Vestir a roupa de treino e fazer 10 flexões

🔍 Exemplo

Hábito: Meditação

Passos Mínimos: Sentar e definir um temporizador para 1 minuto

Aqui o objetivo não progredir nos hábitos em si, mas sim remover a fricção que associamos à execução do hábito em si.

Costuma-se dizer:

💬 Citação

A parte mais difícil de fazer exercício é sair de casa e ir para o ginásio. Depois de estarmos lá, o exercício até é divertido!

O princípio de “só aparecer” tira partido desta falácia psicológica, facilitando o processo de ir ao ginásio porque é mais fácil fazer exercício depois de já lá estar. Ou então não, se não houver motivação. Mas pelo menos desassociamos a ideia de ir ao ginásio da imagem de um treino extremamente cansativo.

Quando comecei a experimentar com esta ideia e a aplicá-la aos meus próprios hábitos, notei numa coisa interessante: comecei também a aplicá-la a outros aspetos da minha vida, como o trabalho. “Preparar uma grande apresentação” tornou-se “abrir o PowerPoint e fazer o rascunho de alguns diapositivos” e “escrever um relatório” passou a ser “escrever algumas ideias na minha aplicação de notas”. É engraçado como a abordagem de desenvolvimento iterativo que costumamos aplicar na engenharia de software é o oposto da forma como o meu cérebro estava formatado para operar noutras tarefas do dia-a-dia.

E foi assim, lentamente, que comecei a levar o meu trabalho imediato menos a sério e a preocupar-me menos com o quão perfeito tem de ser o resultado final. A minha mentalidade focada na qualidade começou a mudar de “sei como fazer isto na perfeição, mas vai dar imenso trabalho” para “vou deitar as minhas ideias cá para fora e refiná-las mais tarde”. E os meus resultados foram mesmo muito bons!

Com o tempo acabei por perceber que materializar as minhas ideias em vez de pensar demasiado nos resultados, é uma excelente forma de aliviar a pressão de começar algo novo (a conhecida síndrome da folha em branco).

🔑 Ideia Chave

Não pensar demasiado no resultado e tentar simplesmente materializar a nossas ideias, é uma excelente forma de aliviar a pressão de começar.

Naturalmente, apliquei este princípio às minhas aspirações de escrita e aconteceu algo inédito: fui de férias e fiquei ansioso por começar a escrever. Havia um milhão de outras coisas que poderia querer fazer (como ir para a piscina ou dar um passeio no bosque), mas só queria era escrever. Na altura, senti que recuperei uma paixão há muito perdida. Embora esta vista inspiradora tenha provavelmente ajudado:

Vista inspiradora da costa alentejana

Quando finalmente comecei, redescobri que escrever é mesmo muito difícil: comunicar pensamentos de forma articulada e apelativa, enquanto se tenta provocar as reflexões pretendidas, é incrivelmente desafiante. Apesar disso, é também um processo criativo extremamente recompensador.

Acho engraçado que o processo de escrever este post acabou por me ensinar uma lição importante, o que já é uma vitória em comparação com deixá-lo na minha imaginação.

E não deu assim tanto trabalho.

Pode não ser perfeito. Mas é real.

Hello World!